A Falecida # 0

A Falecida número zero foi lançada no dia 1º de julho de 1991. Era uma noite de segunda-feira e os 100 exemplares de 20 páginas haviam ficado prontos poucas horas antes. Para lançar o fanzine, o Zé Luiz, o Milton e eu convidamos a banda de três amigos – Régis, Jefferson e Joca -, que atendiam pelo nome “Os Egoístas” (depois Motorcycle Mama e hoje Motormama).

Num anfiteatro da Unaerp (Universidade de Ribeirão Preto) quase lotado, distribuímos nosso zine, projetamos slides com desenhos de Robert Crumb e ouvimos o rock dos Egoístas. Até a TV Ribeirão apareceu e deu uma matéria no dia seguinte. O lançamento do zine também foi notícia nas páginas do jornal Folha de S. Paulo, em seu caderno local.

A Falecida # 0 foi o resultado de quase dois anos de leituras, entrevistas, quadrinhos e rock’n’roll. Suas páginas trazem entrevistas com os titãs Arnaldo Antunes e Toni Bellotto, sobre poesia concreta e seus discos, um papo com Renato Russo sobre Legião Urbana, cinema e política, trechos da escrita certeira de Charles Bukowski, um miniconto (O Segredo de Stanis) de Mário Marins e uma divertida história em quadrinhos do Rufferto, o cão do Groo, personagens do impagável Sergio Aragonés.

A capa, que você vê acima, é um trabalho do artista plástico Luiz Carlos Falcão (1961-2003). Abaixo, um pedaço do zine, a página 3, com uma entrevista com Arnaldo Antunes, que naquele tempo ainda fazia parte dos Titãs e havia acabo de lançar o seu segundo livro, “Tudos”.

A-FALECIDA-ZERO_PAG_3

 

A FALECIDA # 0
MÊS E ANO: Julho de 1991
EDITORES: Angelo Davanço, José Luís Gomes e Milton Bilar Montero
NÚMERO DE PÁGINAS: 20
FORMATO: Meio ofício, grampeado
COMPOSIÇÃO: Máquina de escrever, colagens e letra transfer
IMPRESSÃO: Fotocópia
DISTRIBUIÇÃO: Gratuita
TIRAGEM: 100 exemplares
TEMÁTICA: Histórias em quadrinhos, literatura, música, entrevistas, contos, fotografia
RESENHA: A primeira edição do fanzine A Falecida tem material produzido pelos editores, colaborações de Mário Marins (conto) e Henrique Porto (fotografia), HQ pirateada de Aragonés e capa do artista plástico Luís Carlos Falcão. Traz entrevistas com Arnaldo Antunes, Renato Russo e Toni Bellotto, trechos selecionados de textos do poeta Charles Bukowski, o conto Segredo de Stanis e uma fotografia. Conta com apoio cultural da Hedonê Livraria e Papelaria.

A revolução será xerocada

Antes de virar jornalista, eu já era fanzineiro. Antes do computador, eu usava papel, cola e tesoura. Antes de vistosas impressões multicoloridas, eu usava e abusava dos dois únicos recursos das máquinas de xerox – ampliar ou reduzir. Antes das redes sociais, eu trocava meus zines com o mundo inteiro pelo correio.

Chester Floyd Carlson (1906-1968), inventor da fotocopiadora

Chester Floyd Carlson (1906-1968), inventor da fotocopiadora

Depois veio a tecnologia e as experimentações. Blogs, sites, fanpages e o que ainda está por vir. Entre inúmeros casos de tentativa e erro, um e outro acerto, vejo que a tecnologia é boa para muitas coisas, inclusive cultivar boas ideias.

Mas, infelizmente, grande parte dos bytes espalhados por aí estão ocupados por assuntos sem relevância (pelo menos para mim), fazendo prosperar uma espécie de “culto ao medíocre”.

Então, deletei minhas tentativas tecnológicas da memória e percebi que, por mais absurda que esta afirmação possa parecer, o futuro está no papel xerocado dos fanzines. No nosso meio (o meio dos zineiros), o público pode ser pequeno, mas sabe o que quer. E é para ele que quero continuar escrevendo. Mesmo porque, se eu quisesse conquistar as massas, eu faria um blog de humor tão sem graça como a maioria espalhada por aí.

Este é o blog do fanzine A Falecida. Ele não é um fim, mas sim um meio. Acompanhe e fique por dentro do que já aconteceu nesta história de mais de duas décadas e no que ainda vem por aí. E olha que ainda vem muita coisa!

Angelo DavançoAngelo Davanço
fanzineiro e jornalista, necessariamente nesta ordem

Uma pequena história dos fanzines

O termo fanzine vem da contração de duas palavras inglesas e significa, literalmente, “revista de fã” (FANatic MagaZINE). Trata-se de toda publicação de caráter alternativo, geralmente sem intenção de lucro, que traz textos diversos, histórias em quadrinhos, música, cinema, literatura, comportamento, isoladamente, ou tudo junto.

Os primeiros fanzines surgiram nos Estados Unidos, nos anos 30, produzidos por leitores de revistas de ficção científica, que se uniam em clubes de discussão sobre o assunto. O termo fanzine só veio surgir mais tarde, em 1941, através do norte-americano Russ Chauvenet.

zines 005

No Brasil, os primeiros zines também surgiram da iniciativa de fãs de ficção científica. O primeiro de que se tem notícia é o “Ficção”, editado em 1965 por Edson Rontani, em Piracicaba (SP). O nome usado para estas publicações naquela época era boletim. O termo fanzine só surgiu por aqui nos anos 70.

A explosão dos zines brasileiros ocorreu a partir da metade dos anos 80 e na década de 90, com inúmeros títulos surgindo por todos os cantos do país, tratando dos mais variados assuntos.

Anos mais tarde, com o agravamento da crise econômica sob o governo Collor e depois, com o surgimento do computador pessoal e, principalmente, da Internet, os fanzines de papel tiveram uma queda significativa em sua produção. Muitos resistem, mas não com a força do passado. Alguns migraram para outras plataformas, como sites, blogs e arquivos PDF. Outros desapareceram e outros tantos surgiram a partir destas novas mídias.

E esta é A Falecida, com um pé ali (no papel), outro aqui (na rede), aparecendo de vez em quando.


Angelo DavançoAngelo Davanço

fanzineiro e jornalista, necessariamente nesta ordem