A revolução será xerocada

Antes de virar jornalista, eu já era fanzineiro. Antes do computador, eu usava papel, cola e tesoura. Antes de vistosas impressões multicoloridas, eu usava e abusava dos dois únicos recursos das máquinas de xerox – ampliar ou reduzir. Antes das redes sociais, eu trocava meus zines com o mundo inteiro pelo correio.

Chester Floyd Carlson (1906-1968), inventor da fotocopiadora

Chester Floyd Carlson (1906-1968), inventor da fotocopiadora

Depois veio a tecnologia e as experimentações. Blogs, sites, fanpages e o que ainda está por vir. Entre inúmeros casos de tentativa e erro, um e outro acerto, vejo que a tecnologia é boa para muitas coisas, inclusive cultivar boas ideias.

Mas, infelizmente, grande parte dos bytes espalhados por aí estão ocupados por assuntos sem relevância (pelo menos para mim), fazendo prosperar uma espécie de “culto ao medíocre”.

Então, deletei minhas tentativas tecnológicas da memória e percebi que, por mais absurda que esta afirmação possa parecer, o futuro está no papel xerocado dos fanzines. No nosso meio (o meio dos zineiros), o público pode ser pequeno, mas sabe o que quer. E é para ele que quero continuar escrevendo. Mesmo porque, se eu quisesse conquistar as massas, eu faria um blog de humor tão sem graça como a maioria espalhada por aí.

Este é o blog do fanzine A Falecida. Ele não é um fim, mas sim um meio. Acompanhe e fique por dentro do que já aconteceu nesta história de mais de duas décadas e no que ainda vem por aí. E olha que ainda vem muita coisa!

Angelo DavançoAngelo Davanço
fanzineiro e jornalista, necessariamente nesta ordem

Uma pequena história dos fanzines

O termo fanzine vem da contração de duas palavras inglesas e significa, literalmente, “revista de fã” (FANatic MagaZINE). Trata-se de toda publicação de caráter alternativo, geralmente sem intenção de lucro, que traz textos diversos, histórias em quadrinhos, música, cinema, literatura, comportamento, isoladamente, ou tudo junto.

Os primeiros fanzines surgiram nos Estados Unidos, nos anos 30, produzidos por leitores de revistas de ficção científica, que se uniam em clubes de discussão sobre o assunto. O termo fanzine só veio surgir mais tarde, em 1941, através do norte-americano Russ Chauvenet.

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No Brasil, os primeiros zines também surgiram da iniciativa de fãs de ficção científica. O primeiro de que se tem notícia é o “Ficção”, editado em 1965 por Edson Rontani, em Piracicaba (SP). O nome usado para estas publicações naquela época era boletim. O termo fanzine só surgiu por aqui nos anos 70.

A explosão dos zines brasileiros ocorreu a partir da metade dos anos 80 e na década de 90, com inúmeros títulos surgindo por todos os cantos do país, tratando dos mais variados assuntos.

Anos mais tarde, com o agravamento da crise econômica sob o governo Collor e depois, com o surgimento do computador pessoal e, principalmente, da Internet, os fanzines de papel tiveram uma queda significativa em sua produção. Muitos resistem, mas não com a força do passado. Alguns migraram para outras plataformas, como sites, blogs e arquivos PDF. Outros desapareceram e outros tantos surgiram a partir destas novas mídias.

E esta é A Falecida, com um pé ali (no papel), outro aqui (na rede), aparecendo de vez em quando.


Angelo DavançoAngelo Davanço

fanzineiro e jornalista, necessariamente nesta ordem